O cravo brigou com a rosa

“O cravo brigou com a rosa,
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido,
E a rosa despedaçada.

O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar,
O cravo teve um desmaio,
E a rosa pô-se a chorar.”

Saudade da infância composta por cantigas!

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Saudade

Saudade daqueles tempos!

Hoje pela manhã, veio-me à memória o carro virando à direita, subindo a rua íngrime. A casa da minha avó como sempre foi, nada mudava, meu avô apoiado no portão, esperando a gente chegar!

A macarronada e a salada de legumes que minha avó fazia!

Meu avô vivo, minha avó sã!

Nem tudo na vida muda para melhor! Tenho saudade desse pedacinho precioso da minha vida! Agora, não há mais volta…

Há quase um ano meu avô tornou-se anjo!

Minha avó foi devastada pelo Alzheimer!

O tempo não volta, as condições não voltam! Resta-nos apenas o amor e as lembranças!

 

Vovô

Existem Manoéis. Existem Joaquins. Existiu um Manoel Joaquim Ramos, meu avô.

Ele nasceu em 27 de maio de 1921, em Santa Eudóxia (São Paulo).

Ele partiu no amanhecer do dia 29 de junho de 2011, aos 90 anos. Amei-o e amarei-o pela eternidade de minha alma.

Sabemos que esse dia chegará para todos, ainda assim, nunca acreditamos que a morte se abaterá sobre aqueles que amamos.

A despeito disso, vovô recebeu o abraço de um espírito gentil que o levou para outro plano e trouxe-lhe o descanso tão almejado.

Não haverá mais…

… o meu avô no muro de sua casa, assistindo o movimentar dos transeuntes.

… o som dos seus passos miúdos ou de sua voz rouca.

… sua boininha simpática cobrindo os cabelos, ainda mais escuros do que brancos.

… as histórias do tempo em que ele ia para os sítios ou pescava.

… poder tocá-lo, poder vê-lo, poder senti-lo.

Restam somente as lembranças, a saudade e o amor. Isso tudo é pouco demais para meu coração egoísta que o deseja perene ao meu lado, com seu corpo humano e mortal. Sua alma a me cuidar parece tão pouco, quero poder tê-lo em meus braços.

Meu avô se foi e levou um imenso pedaço de mim.

Faz dois dias que ele deixou esse mundo para se tornar nosso anjo da guarda, ao lado de todas as pessoas que ele amava e já haviam partido.

Tudo o que desejo é que vovô esteja em paz e feliz, que possa recuperar sua alma de todo o peso de uma vida inteira.

Espero ter forças suficientes para deixá-lo partir tranqüilamente. Que Deus o esteja cuidando.

Sentirei sua falta.

As aventuras de Tintin

E vejam a surpresa que não me foi, recordar tantos anos depois, em um momento tão sem propósito!

Folheando, por assim dizer, as páginas de um jornal on line, vejo um estopim acender as minhas lembranças e ali estávamos eu e meu irmão colados à televisão, assistindo e devorando cada segundo das famosas “Aventuras de Tintin”!

Descubro que um dos desenhos que coloriram minha infância foi inspirado em um jovem que deveras existiu! Hergé, inspirado em Palle Huld, um garoto repórter de 15 anos, criou aquele aventureiro que corria o mundo sem sair de minha sala, ao lado de Milu, o nobre cachorrinho escudeiro, e do Capitão Haddock, velho lobo do mar.

Palle Huld, dinamarquês com longa carreira de ator, morreu aos 98 anos no dia 26 de novembro de 2010. Deixo minha lembrança ao menino que este homem foi em 1928, pois ainda que não o soubesse até alguns minutos atrás, sem ele minha infância teria menos diversão.

Tiro o chapéu para Hergé, que viu no jovem repórter um motivo para criar incríveis histórias, com personagens tão curiosos!

Brisa

O frescor da brisa alcança-me a nuca, refresca a pele, ignora os antecedentes de dias demasiadamente quentes, de bolsões de calor estagnados, de vento adormecido.

O sol esconde-se por de trás de um delicado dossel de nuvens, ligeiramente opaco e acinzentado, aparentemente tão frio. Contudo, meus ossos não gelam e a sensação é deliciosa, há algo de saudoso neste tempo nublado e fresco, um dia de verão sem sol e sem calor escaldante.

Um dia perfeito, tão perfeito que desejaria não estar em uma sala no centro de uma capital. Desejaria estar em um campo ou em uma cidade menor, mais hospitaleira, deixando que minhas pernas me levassem para qualquer lugar em passeio prazeroso. Imagino-me com um vestido de verão, flores pequenas, fundo delicado, andando sem rumo pelas ruas de um lugar simpático, sem o sol ardendo em minha face, com a suave brisa acariciando-me, enganando uns e outros que pensam estar frio.

Não imagino outro lugar para este sonho que não a cidade de minha infância.