Era uma vez…

Era uma vez…

… Uma família que se reunia todo final de ano, para passar a virada unida! Era aquele o momento em que todos os irmãos estavam unidos, e ali estavam também o pai e a mãe. O pai fazia um cuscus especial, os outros se empenhavam em completar a mesa do jantar! Que bonita ela ficava!

Eu estava lá todos os anos, sou uma das irmãs!

Este ano, não poderei estar e sei o quanto chorarei sabendo que eles estão reunidos e eu, aqui sozinha, tão longe do meu lar.

Era uma vez…

… Uma piada de mal gosto do destino, que me jogou tão longe de minha família e impediu-me de poder estar com eles no momento que, para nós, é o mais importante! Serei a única filha a não estar com eles na virada, a não sentar com eles no jantar especialmente preparado!

Era uma vez…

… Uma menina chorando na virada do ano, encolhida em si mesma. Essa menina serei eu e o motivo, vocês sabem.

O mundo não é um mar de rosas!

O mundo não é um mar de rosas!

As águas estavam perfeitas, a brisa agitava meus cabelos e refrescava-me do calor intenso, a escalada não é fácil, mas pouco a pouco, com paciência e um movimento seguido do outro, lanço-me na aventura de crescer na vida. A busca por ser alguém tem seus preços e estes são cobrados desde cedo, quando ainda não somos ninguém! Provas de fogo, que nos desafiam ao extremo e que, por vezes, ferem-nos mais do que o esperado.

Desde que nasci, não soube de um final de ano em que não tenha gozado da companhia de minha família. Pais e irmãos reunidos, ainda que dormindo tão cedo e acordando com os fogos de artifício. Um jantar tão lindo, com os pratos que tradicionalmente preparamos apenas no final de ano!

Para tentar ser alguém, tive que deixar os braços de minha família, mudar-me para mais de 10 horas de viagem daqueles que amo. Não os vejo desde setembro, não passo longos dias com eles desde março. Eis que um sacrifício doloroso me é exigido neste momento, controlo-me para não cair em desespero e chorar loucamente (ainda que saiba, quando chegar em casa, minhas estruturas cederão).

O Natal chega e logo após o Ano Novo. Não estou entre aqueles que terão o longo feriado, terei de trabalhar nesta semana que separa as duas importantes datas e isso significa abrir mão, pela primeira vez em minha vida, de algo que me é tão terno e pelo que espero ano-a-ano, ansiosamente.

Uma faca está cravada em meu peito, o sangue jorra, mas apenas eu sinto e vejo. A dor vibra e um caroço prende-se em minha garganta. Lágrimas brotam e trato de escondê-las a tempo. O humor não é tão afetado quanto normalmente, tampouco meu ânimo e disposição.

Tristeza é a palavra do dia. Sofrimento é a sensação do momento. Aflição é o reflexo de minha alma.