Mutações e Inconstâncias

O mundo é tão mutável, tão averso ao simples girar de uma roda gigante! Tão amante do fluir veloz da correnteza de um rio tortuoso!

Vejo a magia da mutação em cada esquina. O príncipe vira sapo e o sapo vira príncipe. O alimento vira restos e os restos, alimento. O ogro desencanta-se e o encantado torna-se ogro. Um sorriso converge para um lamento e o lamento, para um sorriso.

Nada é estático, nada é o que é, tampouco o que parece ser!

Neste contexto de inconstâncias, como hei de proceder, se as mudanças e descobertas estão em desarmonia com o meu ser, que se transformou no sentido oposto?!

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Onde está meu “eu”?

Um algo de mim perdeu-me nessas idas e vindas, nos caminhos e descaminhos que cruzaram e descruzaram os meus passos que vêm e vão.

Estou, contudo, tão cansada para procurá-lo, tão exausta e rastejante sobre meu próprio ser…

O relógio rouba-me a liberdade! O cansaço dilacera, até mesmo, a capacidade de pensar, de sonhar, de sorrir! Os passos tropeçam em si e os pés pesam como grilhões, os ombros doem como se Atlas eu fossem! Onde está o ar para que eu possa respirar?

Onde está meu “eu”, que se perdeu de mim!? Seja, talvez, apenas breu! Quem dera fosse uma folha de papel, que pode ser encontrada amassada a um canto ou sob pilhas de qualquer coisa, em uma gaveta ou sob a cama!

Pandora: Culpada das intolerâncias!

Intolerância! Devo dizer que sou intolerante! Sou radicalmente intolerante! Sou repulsivamente intolerante!

Não tolero intolerância, em todas as suas vertentes!

Não tolero pessoas que discriminam o diferente!

Não tolero pessoas que maltratam e humilham seres vivos!

Não tolero quem cria pré-conceitos antes mesmo de saber ou conhecer!

Não tolero quem se acha melhor do que os outros!

Não tolero violência, crimes e marginalização!

Não tolero quem acha que tudo tem que vir fácil!

Não tolero corrupção e desonestidade!

Não tolero a maldade e o egoísmo!

Não tolero a depredação à natureza, aos bens públicos e particulares, aos bens históricos, a qualquer coisa fruto do esforço e empenho de outrem!

Sou agressivamente intolerante, pois não tolero os falsos moralismos e mentiras que os Homens pregam todos os dias!

Absurdamente intolerante! Eu sou, pois não tolero os males que assolam a alma e a consciência humanas, tampouco tolero as atitudes de cada um de nós!

Não tolero a forma como caminhamos para trás e regredimos!

A evolução de fato deve harmonizar com a bondade, a caridade, as boas intenções e atitudes!

Os males escaparam por entre os dedos de Pandora e germinaram no ser humano!

Onde está, pois, a esperança de que as ervas daninhas sequem e a calamidade em  nossas almas se reverta em Bem?

Por que eu trataria como amigos aqueles que sequer me tratam como opção?!

Tradições e Revoluções

Cresci em uma família estruturada e minha mãe, sem dúvida alguma, exerceu e exerce uma grande influência na minha formação como mulher moderna e independente. Saliento que estas qualidades não devem ser confundidas com a ausência de respeito próprio e a libertinagem que têm se disseminado entre as moças, que inescrupulosas expõem-se sem pudores e contradizem a boa imagem de uma mulher determinada e batalhadora. Tanto homens, quanto mulheres confundem e pervertem o conceito de liberdade e de modernidade. Este, contudo, não é o tema que abordarei (inclusive porque merece uma abordagem própria).

Longe de mim ser uma empolgada feminista. Não sou! Ser mulher, entretanto, não me impede de sonhar e ter pretensões, por isso pelejo para conquistar meu espaço e ver uma coisa ou outra realizada! O problema surge quando estas vontades chocam-se com as tradições, tendenciosamente machistas.

Quando há essas contraposições e o assunto é discutido entre homens e mulheres, por óbvio, as opiniões gritam entre si e é mais do que improvável que se chegue a um consenso.

O motivo deste post? Ontem, eu conversava com um querido amigo sobre a beleza de seu nome e que pensava na idéia de dar o mesmo nome composto a uma filho que um dia eu venha a ter. Encerrei a idéia com o seguinte comentário:

 

“Só tenho que convencer que o Capassi tem que vir por último.”

 

Iniciou-se a guerra dos sexos!

Ser grande defensor e admirador do sexo feminino não impediu este amigo de, como homem e pai, bater o pé em posicionamento contrário ao meu. Respeito seu ponto de vista, apenas não o absorverei! Entretanto, como a conversa foi demasiadamente divertida e agitada, instiguei-me a apresentar as minhas idéias sobre o assunto.

Desde a mais tenra idade, muito antes de saber como são concebidos os bebês, eu pensava nos meus futuros filhos e atribuía-lhes nomes, acrescentando ao final somente o meu sobrenome. Fato que eu ignorava completamente: o pai das crianças também teria um sobrenome e o sonho de legá-lo ao futuro da família! Independentemente, compartilhei do mesmo sonho e a ânsia por transmitir o meu sobrenome às gerações que estão por vir apenas cresceu conforme eu passava da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. A problemática surgiu quando cogitei, recentemente, sua realização.

Imaginem um quebra-cabeças desmoronando como se as peças jamais acabassem. Essa foi a minha reação e a reação do meu marido, ambos pasmos com a idéia de seus respectivos sobrenomes não ganharem destaque nos herdeiros.

Muitos dos conceitos e regras que regem as condutas na sociedade, na família e na religião são oriundas da tradição.

Atualmente, temos uma série de tradições que remontam à Idade Média, à Antigüidade Clássica e tempos ainda mais remotos. Por vezes, a existência de costumes petrificados implica a necessidade de manter-se a ordem e o controle sobre determinado grupo de pessoas. Em razão disso, grande parte das tradições visam a atender a necessidade de manutenção da soberania do homem sobre o grupo em que está inserido, seja o clã ou a família.

Quando a força física imperava, o sexo masculino alçou vôo. À mulher foram dados os deveres de cuidar do lar, dos filhos e do marido, bem como lhe foi proibido, por exemplo, prover o sustento da família. Isso tornou a o sexo feminino ainda mais dependente do homem, a que se delegava a responsabilidade de trazer o alimento, a renda e de proteger sua família.

Também em razão disso, a maior parte das culturas que se erguem ao redor do mundo são patriarcais.

Em casamentos, vemos o pai caminhando com a noiva e entregando a filha às mãos do futuro marido. A tradição longínqua e milenar reflete o pai tirando a filha de sua guarda e passando-a aos cuidados de outro homem, de outra família, por isso que costumeiramente a mulher substitui ou agrega ao seu sobrenome o do esposo. Similarmente, os filhos recebe o patronímico. As mulheres com o destino de tê-lo trocado por outro quando desposada, os homens com o feliz destino de espalharem seu nome à mulher e à prole.

Pobre da mulher, condenada a que seu legado seja consumido pelo tempo.

É uma nova família, através do pai?

Respondo: E porque não, através da mãe?

É sabido que a sociedade, ao longo dos séculos tem sofrido grandes mutações. Hoje, as mulheres não estão adstritas ao lar, possuindo profissões e estando livres nos pesados preconceitos que as tratavam como meretrizes, rebeldes, desorientadas, desordeiras, inconseqüentes e tantos outros termos pejorativos. Conquistamos a posição de guerreiras!

Isso, contudo, não quer dizer que os conceitos e atitudes que permeiam a sociedade estejam despojados das cargas de conservadorismos e destaque da figura masculina. Imperceptivelmente, as ruas e lares estão salpicados de homens que se amarguram pelo sucesso da esposa ou pela independência da mesma, que não admitem que ela não receba seu sobrenome, tampouco que ela deseje entregar o próprio sobrenome a ele e aos filhos, dentre outros.

A questão é que certos costumes estão tão entranhados no todo que passam despercebidos, querendo ou não, é difícil para os homens (e para damas partidárias do conservadorismo) aceitarem que as mulheres modernas não dependem de ninguém, que não do seu próprio esforço e desejo de vencer.

Machismo é diferente de tradição?

Respondo: Muitas vezes embaralham-se de modo que não é possível dissociar um do outro.

A mulher que abre mão de seu patronímico para receber o do esposo deve ser respeitada pela sua opção. Fazê-lo não implica na admissão de que o homem ordene-lhe a vida, inclusive porque muitas pessoas desconhecem as razões das tradições e interpretam-nas com aroma de rosas atribuídos ao romantismo dos contos de fadas. Entretanto, aquelas mulheres que fazem o contrário devem ser igualmente amadas e respeitadas, sem serem tachadas de feministas ou algo do gênero.

Desejar independência e equiparação aos anseios masculinos é o mínimo. Todos os seres humanos devem ter as mesmas possibilidades de realizar seus sonhos, assim, conceitos e princípios cujas origens estão na distinção dos sexos são absolutamente ultrapassados!

O que estou dizendo não deve ser confundido com a papo furado de quem precisa provar sua superioridade com relação ao homem rompendo a tradição. Apenas digo que a tradição é fundamentada em culturas que, sob muitos aspectos, estão defasadas. Em razão disso, em um cabo de guerra entre as vontades de uma mulher e de um homem, a tradição não deve ser o peso a fazer com que um e outro vença. 

Manifestações e atitudes como as minhas não são para comprovar superioridades ou inferioridades. Acredito que a competência  e o esforço de qualquer pessoa são os elementos responsáveis por provar o que tem que ser provado, homens e mulheres conquistam seu espaço batalhando.

Por tradição, a mulher é assolada com a dupla jornada, sendo responsável pelo seu sucesso profissional e pelos cuidados com a casa. É desgastante! Vendo isso, muitos homens têm auxiliado nos afazeres domésticos e equilibrado as relações dentro do lar. Aplaudo de pé!

Questiono: por que não buscar o equilíbrio em todos os âmbitos? A mudança é vagarosa, mas rasteja às mudanças.

Digo que conheci um ou outro casal cuja cria foi agraciada com o matronímico. O pai declara orgulhoso!

Impossível negar que o mulherio tem feito distorções dos princípios de equiparação, praticando a libertinagem e a vadiagem. Na minha singela opinião, a falta de respeito próprio e vulgaridade masculina ou feminina são repugnantes!

Estamos tirando o direito do homem de ser chefe da família? E com isso arrancando-lhes a dignidade?

Respondo: Penso que não. A mulher está erguendo-se ao lado do homem para que ambos, igualmente, exerçam o posto de chefe de família, carregando juntos os problemas e transpondo as barreiras como um casal. Duas cabeças pensam e trabalham melhor do que uma! Isso se chama união!
Além disso, as novas posturas femininas ou legar o sobrenome aos filhos não desnudam o homem de sua dignidade, pois esta é conquistada por atitudes. Ser digno é ser honesto e caridoso, ser amigo e companheiro, ser educado e cuidar de seus filhos, ensinar-lhes o bom caminho e pelejar por princípios éticos e morais.

Além disso, grande parte das religiões é patriarcal, não que isso seja um problema, mas repercute diretamente na formação dos princípios que orientam as condutas e convivências, observando que a regência das situações deve sempre estar às mãos do homem e sendo a mulher um instrumento.

Sem entrar nos méritos religiosos, pois respeito as crenças que preenchem os corações de todos, enquanto homem e mulher não forem tratados como iguais, sempre haverá o estigma que nos persegue como “sexo frágil” e que nos leva à subordinação, à poda do livre arbítrio, à dependência. Essas versões retrógradas de família ainda pipocam por sobre a Terra, havendo muitas mulheres privadas de sair de sob os cuidados do marido.

Independentemente disso, tudo começou com o sonho de que meus filhos tenham meu sobrenome como o último. Eu vejo meus argumentos apenas como um reforço para que eu lute e defenda esse e outros pontos de vista!

Ao final da conversa com meu amigo, anunciei:

A verdade é que, nessa conversa, nenhum de nós sairá vencedor. Somos um homem e uma mulher, um pai e uma futura mãe. Somos pontos de vista absolutamente e absurdamente distintos e controversos sobre o mesmo assunto.

Penso que, quando a celeuma sobre patronímicos e matronímicos se instaurar em uma família, haverá muito pano para manga e nem sempre haverá um acordo ou alguém que ceda.