Tradições e Revoluções

Cresci em uma família estruturada e minha mãe, sem dúvida alguma, exerceu e exerce uma grande influência na minha formação como mulher moderna e independente. Saliento que estas qualidades não devem ser confundidas com a ausência de respeito próprio e a libertinagem que têm se disseminado entre as moças, que inescrupulosas expõem-se sem pudores e contradizem a boa imagem de uma mulher determinada e batalhadora. Tanto homens, quanto mulheres confundem e pervertem o conceito de liberdade e de modernidade. Este, contudo, não é o tema que abordarei (inclusive porque merece uma abordagem própria).

Longe de mim ser uma empolgada feminista. Não sou! Ser mulher, entretanto, não me impede de sonhar e ter pretensões, por isso pelejo para conquistar meu espaço e ver uma coisa ou outra realizada! O problema surge quando estas vontades chocam-se com as tradições, tendenciosamente machistas.

Quando há essas contraposições e o assunto é discutido entre homens e mulheres, por óbvio, as opiniões gritam entre si e é mais do que improvável que se chegue a um consenso.

O motivo deste post? Ontem, eu conversava com um querido amigo sobre a beleza de seu nome e que pensava na idéia de dar o mesmo nome composto a uma filho que um dia eu venha a ter. Encerrei a idéia com o seguinte comentário:

 

“Só tenho que convencer que o Capassi tem que vir por último.”

 

Iniciou-se a guerra dos sexos!

Ser grande defensor e admirador do sexo feminino não impediu este amigo de, como homem e pai, bater o pé em posicionamento contrário ao meu. Respeito seu ponto de vista, apenas não o absorverei! Entretanto, como a conversa foi demasiadamente divertida e agitada, instiguei-me a apresentar as minhas idéias sobre o assunto.

Desde a mais tenra idade, muito antes de saber como são concebidos os bebês, eu pensava nos meus futuros filhos e atribuía-lhes nomes, acrescentando ao final somente o meu sobrenome. Fato que eu ignorava completamente: o pai das crianças também teria um sobrenome e o sonho de legá-lo ao futuro da família! Independentemente, compartilhei do mesmo sonho e a ânsia por transmitir o meu sobrenome às gerações que estão por vir apenas cresceu conforme eu passava da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. A problemática surgiu quando cogitei, recentemente, sua realização.

Imaginem um quebra-cabeças desmoronando como se as peças jamais acabassem. Essa foi a minha reação e a reação do meu marido, ambos pasmos com a idéia de seus respectivos sobrenomes não ganharem destaque nos herdeiros.

Muitos dos conceitos e regras que regem as condutas na sociedade, na família e na religião são oriundas da tradição.

Atualmente, temos uma série de tradições que remontam à Idade Média, à Antigüidade Clássica e tempos ainda mais remotos. Por vezes, a existência de costumes petrificados implica a necessidade de manter-se a ordem e o controle sobre determinado grupo de pessoas. Em razão disso, grande parte das tradições visam a atender a necessidade de manutenção da soberania do homem sobre o grupo em que está inserido, seja o clã ou a família.

Quando a força física imperava, o sexo masculino alçou vôo. À mulher foram dados os deveres de cuidar do lar, dos filhos e do marido, bem como lhe foi proibido, por exemplo, prover o sustento da família. Isso tornou a o sexo feminino ainda mais dependente do homem, a que se delegava a responsabilidade de trazer o alimento, a renda e de proteger sua família.

Também em razão disso, a maior parte das culturas que se erguem ao redor do mundo são patriarcais.

Em casamentos, vemos o pai caminhando com a noiva e entregando a filha às mãos do futuro marido. A tradição longínqua e milenar reflete o pai tirando a filha de sua guarda e passando-a aos cuidados de outro homem, de outra família, por isso que costumeiramente a mulher substitui ou agrega ao seu sobrenome o do esposo. Similarmente, os filhos recebe o patronímico. As mulheres com o destino de tê-lo trocado por outro quando desposada, os homens com o feliz destino de espalharem seu nome à mulher e à prole.

Pobre da mulher, condenada a que seu legado seja consumido pelo tempo.

É uma nova família, através do pai?

Respondo: E porque não, através da mãe?

É sabido que a sociedade, ao longo dos séculos tem sofrido grandes mutações. Hoje, as mulheres não estão adstritas ao lar, possuindo profissões e estando livres nos pesados preconceitos que as tratavam como meretrizes, rebeldes, desorientadas, desordeiras, inconseqüentes e tantos outros termos pejorativos. Conquistamos a posição de guerreiras!

Isso, contudo, não quer dizer que os conceitos e atitudes que permeiam a sociedade estejam despojados das cargas de conservadorismos e destaque da figura masculina. Imperceptivelmente, as ruas e lares estão salpicados de homens que se amarguram pelo sucesso da esposa ou pela independência da mesma, que não admitem que ela não receba seu sobrenome, tampouco que ela deseje entregar o próprio sobrenome a ele e aos filhos, dentre outros.

A questão é que certos costumes estão tão entranhados no todo que passam despercebidos, querendo ou não, é difícil para os homens (e para damas partidárias do conservadorismo) aceitarem que as mulheres modernas não dependem de ninguém, que não do seu próprio esforço e desejo de vencer.

Machismo é diferente de tradição?

Respondo: Muitas vezes embaralham-se de modo que não é possível dissociar um do outro.

A mulher que abre mão de seu patronímico para receber o do esposo deve ser respeitada pela sua opção. Fazê-lo não implica na admissão de que o homem ordene-lhe a vida, inclusive porque muitas pessoas desconhecem as razões das tradições e interpretam-nas com aroma de rosas atribuídos ao romantismo dos contos de fadas. Entretanto, aquelas mulheres que fazem o contrário devem ser igualmente amadas e respeitadas, sem serem tachadas de feministas ou algo do gênero.

Desejar independência e equiparação aos anseios masculinos é o mínimo. Todos os seres humanos devem ter as mesmas possibilidades de realizar seus sonhos, assim, conceitos e princípios cujas origens estão na distinção dos sexos são absolutamente ultrapassados!

O que estou dizendo não deve ser confundido com a papo furado de quem precisa provar sua superioridade com relação ao homem rompendo a tradição. Apenas digo que a tradição é fundamentada em culturas que, sob muitos aspectos, estão defasadas. Em razão disso, em um cabo de guerra entre as vontades de uma mulher e de um homem, a tradição não deve ser o peso a fazer com que um e outro vença. 

Manifestações e atitudes como as minhas não são para comprovar superioridades ou inferioridades. Acredito que a competência  e o esforço de qualquer pessoa são os elementos responsáveis por provar o que tem que ser provado, homens e mulheres conquistam seu espaço batalhando.

Por tradição, a mulher é assolada com a dupla jornada, sendo responsável pelo seu sucesso profissional e pelos cuidados com a casa. É desgastante! Vendo isso, muitos homens têm auxiliado nos afazeres domésticos e equilibrado as relações dentro do lar. Aplaudo de pé!

Questiono: por que não buscar o equilíbrio em todos os âmbitos? A mudança é vagarosa, mas rasteja às mudanças.

Digo que conheci um ou outro casal cuja cria foi agraciada com o matronímico. O pai declara orgulhoso!

Impossível negar que o mulherio tem feito distorções dos princípios de equiparação, praticando a libertinagem e a vadiagem. Na minha singela opinião, a falta de respeito próprio e vulgaridade masculina ou feminina são repugnantes!

Estamos tirando o direito do homem de ser chefe da família? E com isso arrancando-lhes a dignidade?

Respondo: Penso que não. A mulher está erguendo-se ao lado do homem para que ambos, igualmente, exerçam o posto de chefe de família, carregando juntos os problemas e transpondo as barreiras como um casal. Duas cabeças pensam e trabalham melhor do que uma! Isso se chama união!
Além disso, as novas posturas femininas ou legar o sobrenome aos filhos não desnudam o homem de sua dignidade, pois esta é conquistada por atitudes. Ser digno é ser honesto e caridoso, ser amigo e companheiro, ser educado e cuidar de seus filhos, ensinar-lhes o bom caminho e pelejar por princípios éticos e morais.

Além disso, grande parte das religiões é patriarcal, não que isso seja um problema, mas repercute diretamente na formação dos princípios que orientam as condutas e convivências, observando que a regência das situações deve sempre estar às mãos do homem e sendo a mulher um instrumento.

Sem entrar nos méritos religiosos, pois respeito as crenças que preenchem os corações de todos, enquanto homem e mulher não forem tratados como iguais, sempre haverá o estigma que nos persegue como “sexo frágil” e que nos leva à subordinação, à poda do livre arbítrio, à dependência. Essas versões retrógradas de família ainda pipocam por sobre a Terra, havendo muitas mulheres privadas de sair de sob os cuidados do marido.

Independentemente disso, tudo começou com o sonho de que meus filhos tenham meu sobrenome como o último. Eu vejo meus argumentos apenas como um reforço para que eu lute e defenda esse e outros pontos de vista!

Ao final da conversa com meu amigo, anunciei:

A verdade é que, nessa conversa, nenhum de nós sairá vencedor. Somos um homem e uma mulher, um pai e uma futura mãe. Somos pontos de vista absolutamente e absurdamente distintos e controversos sobre o mesmo assunto.

Penso que, quando a celeuma sobre patronímicos e matronímicos se instaurar em uma família, haverá muito pano para manga e nem sempre haverá um acordo ou alguém que ceda.

Conversa sobre Bernard Cornwell

A despeito do tema que me proponho para este post, acrescento a estremecedora sensação de que estou ficando velha. Velha? Sim, porque meu interesse por Bernard Cornwell nasceu por volta de 10 anos atrás, em uma Bienal do Livro em São Paulo.

Àquele tempo, eu não era jovem demais para ser criança. Hoje, eu não sou jovem demais para ser adolescente.

Fuçando aqui e acolá, vendo estes e aqueles livros! Meus olhos se depararam com uma capa azul em que se lia “O Rei do Inverno”. Nas idas e vindas, apenas adquiri o livro 5 anos depois.

Se você nunca leu um texto de Bernard Cornwell, talvez não seja capaz de compreender as sensações das quais desfrutei e o fascínio que foi incrustado nos pensamentos desta que vos fala.

Bernard Cornwell é um reflexo do que há de melhor em épicos. Em um mergulho penetrante, afogamo-nos em intrincados liames, ricos em detalhes e cuidadosamente desenvolvidos para apontarem a versão mais crível da história ou do que ela representaria. Uma bengala a puxar-nos para dentro do palco de cada acontecimento, conversas ou batalhas (estas narradas com perfeccionismo e conteúdos táticos incríveis!).

É fenomenal como a narrativa se desenvolve e como, em determinados pontos (tais como aqueles que envolvem uma curiosa versão de Merlin), aqueles que crêem em magia podem a vê-la evidentemente estampada, enquanto que os céticos nada mais vêem do que coincidências ou fatos fisicamente prováveis.

A última página de cada coleção é gravada pela frustração decorrente do fim e pela ansiedade para a leitura dos outros títulos.

 

Carlitos

Sempre me encantei com aquela figura em branco e preto, com seu chapéu coco e bigode em forma de brocha, girando sua bengala de bambu e trajando paletó apertado e sapatos grandes demais. Ali estava um dos mais conhecidos personagens do cinema, Carlitos, como o conhecemos, “O Vagabundo”, como o chamou seu criador: Charles Chaplin!

Por esses dias, adquiri Chaplin, filme de 1992, estrelado por Robert Downey Jr. no papel principal. Logo após assisti-lo, tocada pela história do homem por trás de Carlitos, lancei-me a uma pesquisa sobre ele.

Quem conhece apenas o “Vagabundo” poderia imaginar os tantos dilemas e problemas que vivia aquele que lhe emprestava o corpo e a imaginação? Apenas aqueles que suspeitarem que ele satirizava nas telas as infelicidades que o afligiam!

Charles Chaplin foi um gênio, um gênio humano, claro! Com tal, com seus defeitos, por vezes inaceitáveis. Alguém que usava de sua arte e de seu trabalho como uma droga para fugir da realidade, a meu ver! Indiscutivelmente, um gênio e, como gênio, com todos os exagerados problemas de um gênio! Tal qual Mozart (Um filme que recomendo, Amadeus! A fascinante história de outro gênio, um louco!)!

Aqui fica uma recomendação desta que vos fala. Chaplin é um ótimo filme, com uma bela história! Curto demais para tratar da vida de Charles Chaplin, mas suficientemente bom para fazer-nos rir, chorar e admirar ainda mais o homem e sua criação.

O livro dos livros perdidos – Stuart Kelly

Estou lendo algo realmente interessante, um livro denominado “O livro dos livros perdidos – Uma história das grandes obras que você nunca vai ler”, obra de Stuart Kelly.


Identifiquei-me com o autor nas primeiras páginas da curiosa obra, cujo nome me instigou interesse de pronto, pois devo dizer: os livros são uma paixão e um encantamento para mim, tragam-me da realidade e envolvem-me como garras. Diga-se de passagem, Stuart Kelly levou esse encantamento mais a fundo.

Não estou apta a comentar a totalidade da obra, meu avanço em sua páginas atraentes foi pequena até o presente momento. Aviso aos navegantes, contudo, que “O livro dos livros perdidos” não é um romance, mas sim o intenso resultado de uma pesquisa sobre as grandes obras que se perderam na histórias, seja porque foram distorcidas ao longo dos anos, destruídas ou porque nunca deixaram o mund das idéias.

Tomo a liberdade de apelidar Stuart Kelly como, simplesmente, S.K.

S.K. denomina “Homero” o segundo capítulo, tecendo interessante análise, sobre a existência de fato do enautecido poeta grego através de estudos, inclusive, dos aspectos textuais e da escrita de “Ilíada” e “Odisséia”.

Além disso, S.K. faz a menção dos livros perdidos de Homero, cujas existências foram acusadas por citações em outras obras, principalmente dos autores da antigüidade.

Em Homero, trata com especial atenção de “Margites”, comédia que não teria sido de nosso conhecimento, se não houvesse sido indicada em eventuais menções antigas, tais como a “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Mas qual seria a personalidade deste louco que dá nome à obra? Qual a loucura que o afligia, considerando os tantos significados do termo?

Margites seria ingênuo ou atrapalhado? Talvez fosse um Chaplin, um Forrest Gump, um Homer Simpson ou uns outros tantos, como sugere S.K.

A verdade nua e crua? Margites será eternamente um mistério para nós, pois o poema que levou seu nome perdeu-se nas palavras, nas histórias, no tempo. Nada resta de “Margites”, que não as vagas palavras de uns e outros grandes autores da antigüidade. Nada mais.

De quantos livros sequer temos notícias e jamais teremos? De quantos livros temos notícias e nada mais para todo o sempre?

Continuarei minha leitura e recomendo “O livro dos livros perdidos”.

Nas palavras da Jerônimo Teixeira (Veja), “Um fascinante inventário dos livros que se perderam no tempo, de Homero a Lawrence da Arábia” (http://veja.abril.com.br/141107/p_182.shtml)

Como perder a história

Todos temos coisas a que damos especial valor, ainda que não nos pertença. O bem de minha adoração é a história, seja ela gravada na simbologia da escrita, seja ela expressa em um objeto de família ou uma construção antiga. Ainda assim, a história representada pelo físico que sobreviveu a gerações é o que agita meu espírito e não imaginam o quanto sua eventual destruição machuca-me a alma.

Não entrarei no mérito das dádivas dos povos antigos, que criaram os maiores e mais belos acervos de monumentos e história em uma época que não havia computadores ou guindastes! Não entrarei no mérito daqueles povos avançadíssimos, cujos conhecimentos eram tão mais amplos do que a cegueira dos dias de hoje. Tampouco, tratarei de tudo quanto eles criaram e que se perdeu no tempo, seja pela força do tempo, da natureza ou da ânsia por destruição e dominação do ser humano. Mudemos de assunto antes que o foco seja outro, que não o pretendido.

Certa vez, me foi mostrada uma aliança, cujo casal que a carregou em seu matrimônio gravou a data do casamento. A aliança possuía mais de mil anos, ouro maciço, com uma beleza inigualável pelo simples fato de refletir a história de uma vida e de ser passada pela família por todas as gerações. Quase surtei quando a amiga que a possui exprimiu a idéia de derreter aquele símbolo tão valoroso para fazer dele um outro anel qualquer. Como gostaria eu de ter a sorte de receber um presente como aquele! Guardaria-o para que perdurasse por outros tantos mil anos! Eis ali a história em um único objeto, tão pequeno e para alguns irrelevantes, para outros sem o menor valor!

Veja-se o que acontece com freqüência quando dos tombamentos! A história e a vida de toda uma família desaba em uma noite apenas, para evitar-se que seja tombada como patrimônio histórico, tal qual o famoso caso da Mansão Matarazzo, marco do império que havia sido construído pela família que é um dos maiores símbolos de São Paulo. A Mansão Matarazzo localizava-se na Avenida Paulista e foi destruída pelos próprios Matarazzo na década de 90, na véspera de seu tombamento como Patrimônio da Humanidade. Infelizmente, nem todos valorizam todo o valor de uma obra como aquela e os valores econômicos acabam por cantar mais alto.

Da mesma forma agiu um conhecido de meu pai, no centro de São Bernardo do Campo. Que sabendo das pretensões de tombamento levou a baixo, na calada da noite, a histórica construção que se erigia em uma esquina na rua de que não sei o nome.

Uns sorriem ao ver a história preservada, o esforço de outras vidas e famílias erguido com firmeza. Outros, contudo, não vêem a magia e beleza nisso e deixam que tudo se perca na depredação do tempo ou das máquinas devastadoras.

Não os critico por terem seus pontos de vista, apenas me entristeço por ver essa riqueza que não se reflete em moedas morrer e sumir! As obras de hoje serão de fato esquecidas, aquelas jamais o seriam, tal qual seus criadores se os descendentes ou novos donos lhes desse a importância que tinham! É assim que se apaga a história de uma pessoa, de uma família, de um povo, de um país!

Quisera eu estar em seus lugares e cuidar… ainda que ali não fosse a minha história ou de minha família gravada!

Lamento, apenas lamento!