Escrevo errado

O que seria dos perfeitos, se não fossem os imperfeitos como eu?

Acredito ter cometido um crime imperdoável, meu rosto ruboriza tamanho o horror de meus atos e eu poderia dizer o seguinte em meio à gagueira e ao nervosismo exacerbado: “Cometi um erro de português!”. Oh tamanho absurdo que me isola em desespero, sufocando meu peito com a culpa pelo desastre de meu deslize!

Serei punida com a pena de morte? Oh Graças ao bom Deus, isso não existe no Brasil. Será então a pena perpétua? Pela bondade das almas iluminadas, isso também não há no Brasil. Oh céus, serei condenada a viver na imundice do cárcere, condenada publicamente! Os jurados erguerão contra mim a espada da lei e serei punida como assassina. Sim, assassina na língua portuguesa.

Em pensamentos do dia 29 de dezembro de 2010, fui impiedosa e, armada de um computador, deflagrei o golpe fatal. Eis que escrevi com letras em destaque “Esteriótipo”, enquanto deveria ter escrito “Estereótipo”!

Tantos erros gramaticais aqui e acolá, cometidos por mim ou por outrem. Sou homicida da língua portuguesa, dilacero-a com menor intensidade (se comparada com uns e outros), entretanto, como qualquer homicida, devo ser proporcionalmente flagelada pelos meus crimes. LEVEM-ME À FORCA!

Oh que vergonha cega, como pude matar um dos mais belos instrumentos! Que seja como a Fênix e ressurja das cinzas que deixei para trás!

Chamou-me atenção o querido anônimo, com um comentário que nada explicou: “… esteriótipos?” Juro que tentei entender o que quis dizer, entretanto, minha bola de cristal estava no conserto e tive que imaginar que a dúvida vinha no que dizia respeito ao significado do termo.

Em resposta recebi o seguinte comentário: “É estereótipo, bacharel em direito.” Então, pude entender, através de colocações um tanto quanto arrogantes de um acusador que se oculta sob o nome de Anônimo,  que eu havia digitado erroneamente a palavra estereótipo. Ei-lo, meu juiz!

Em primeiro lugar, a falta de modéstia impede-me de afirmar que escrevo mal, pois não o faço. A falta de hipocrisia impede-me de pensar que sou dona da verdade e que jamais cometo deslizes, tal qual este em comento.

Em segundo lugar, era-me desconhecido, até então, que o título de bacharel em direito atestava-me também como doutora em língua portuguesa (por sinal, quantos professores já não vi cometerem erros ainda mais crassos do que o meu?)!

Apesar de tudo, grito que me condenem! Pequeno ou grande, pratique o crime ao qual me imputaram a prática (e devo ter cometido outros tantos no decorrer de minha vida)! Oh céus, quantos homicídios não devo ter cometido ao longo de todos esses anos!

Grito pelo perdão de minha alma, querida mãe-língua-portuguesa!

Nesta altura do campeonato, em que caminho taciturna rumo ao meu carcereiro, ouso novamente:

O que seria dos perfeitos, se não fossem os imperfeitos como eu?

Nada seria dos perfeitos, à imagem de meu querido Anônimo, que seria simplesmente comum em meio aos demais perfeitos-comuns!

Volto-me para aqueles que se alinham para assistirem-me sucumbir ao voraz julgamento e sorrio. Querem saber? Fugirei e fugirei das garras da justiça que me condena pelo crime de assassinato da língua portuguesa. Saio em fuga rápida até encontrar folha e papel para brincar de escrever errado!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s