Como perder a história

Todos temos coisas a que damos especial valor, ainda que não nos pertença. O bem de minha adoração é a história, seja ela gravada na simbologia da escrita, seja ela expressa em um objeto de família ou uma construção antiga. Ainda assim, a história representada pelo físico que sobreviveu a gerações é o que agita meu espírito e não imaginam o quanto sua eventual destruição machuca-me a alma.

Não entrarei no mérito das dádivas dos povos antigos, que criaram os maiores e mais belos acervos de monumentos e história em uma época que não havia computadores ou guindastes! Não entrarei no mérito daqueles povos avançadíssimos, cujos conhecimentos eram tão mais amplos do que a cegueira dos dias de hoje. Tampouco, tratarei de tudo quanto eles criaram e que se perdeu no tempo, seja pela força do tempo, da natureza ou da ânsia por destruição e dominação do ser humano. Mudemos de assunto antes que o foco seja outro, que não o pretendido.

Certa vez, me foi mostrada uma aliança, cujo casal que a carregou em seu matrimônio gravou a data do casamento. A aliança possuía mais de mil anos, ouro maciço, com uma beleza inigualável pelo simples fato de refletir a história de uma vida e de ser passada pela família por todas as gerações. Quase surtei quando a amiga que a possui exprimiu a idéia de derreter aquele símbolo tão valoroso para fazer dele um outro anel qualquer. Como gostaria eu de ter a sorte de receber um presente como aquele! Guardaria-o para que perdurasse por outros tantos mil anos! Eis ali a história em um único objeto, tão pequeno e para alguns irrelevantes, para outros sem o menor valor!

Veja-se o que acontece com freqüência quando dos tombamentos! A história e a vida de toda uma família desaba em uma noite apenas, para evitar-se que seja tombada como patrimônio histórico, tal qual o famoso caso da Mansão Matarazzo, marco do império que havia sido construído pela família que é um dos maiores símbolos de São Paulo. A Mansão Matarazzo localizava-se na Avenida Paulista e foi destruída pelos próprios Matarazzo na década de 90, na véspera de seu tombamento como Patrimônio da Humanidade. Infelizmente, nem todos valorizam todo o valor de uma obra como aquela e os valores econômicos acabam por cantar mais alto.

Da mesma forma agiu um conhecido de meu pai, no centro de São Bernardo do Campo. Que sabendo das pretensões de tombamento levou a baixo, na calada da noite, a histórica construção que se erigia em uma esquina na rua de que não sei o nome.

Uns sorriem ao ver a história preservada, o esforço de outras vidas e famílias erguido com firmeza. Outros, contudo, não vêem a magia e beleza nisso e deixam que tudo se perca na depredação do tempo ou das máquinas devastadoras.

Não os critico por terem seus pontos de vista, apenas me entristeço por ver essa riqueza que não se reflete em moedas morrer e sumir! As obras de hoje serão de fato esquecidas, aquelas jamais o seriam, tal qual seus criadores se os descendentes ou novos donos lhes desse a importância que tinham! É assim que se apaga a história de uma pessoa, de uma família, de um povo, de um país!

Quisera eu estar em seus lugares e cuidar… ainda que ali não fosse a minha história ou de minha família gravada!

Lamento, apenas lamento!

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